Comportamento
· 31 de julho de 2026· Leitura: 3 minEntre o Luto e a Ilusão: A Desconstrução de uma Vida Dupla no Momento da Despedida
Revelação de ao menos cinco relacionamentos extraconjugais durante o velório do companheiro expõe dinâmica de engano e controle mantida por 12 anos
por Da Redação

O encerramento de um ciclo de vida traz, por natureza, a necessidade de elaboração do luto e do resgate de memórias significativas. No entanto, para a engenheira civil e arquiteta Kaline Macedo, o velório de seu companheiro de 12 anos, Mauro, transformou-se no cenário de um colapso relacional. Em meio à dor da despedida inesperada causada por um acidente automobilístico em outubro de 2025, a revelação de ao menos cinco relacionamentos extraconjugais simultâneos trouxe à tona uma realidade paralela mantida ao longo de todo o namoro.
A Dinâmica do Relacionamento e a Descoberta
A história teve início em 2013, no interior da Bahia, quando Kaline, aos 19 anos, cedeu à insistência de Mauro, dez anos mais velho. O padrão comportamental do parceiro demonstrou contornos disfuncionais desde os primeiros anos do relacionamento: mitomania recorrente (com a criação de histórias fictícias sobre acidentes e dramas pessoais), ciúmes possessivos e condutas de controle ostensivo, que incluíam a instalação de ferramentas de controle parental no dispositivo móvel de Kaline.
A despeito de ter buscado apoio terapêutico e tentado romper o vínculo após nove anos de convivência, a resistência do parceiro e as dinâmicas de coerção mantiveram a união até o momento de sua morte. Foi apenas durante o rito fúnebre que a trama de ocultação ruiu, revelando a existência de múltiplas amantes e desfazendo a imagem construída ao longo de mais de uma década.
Análise Psicopatológica e Relacional
Sob a perspectiva da psicologia clínica e das teorias de personalidade, o caso apresenta traços característicos de estruturas disfuncionais de comportamento.
1. Perfil de Personalidade do Manipulador (Traços Narcisistas e Psicopáticos)
• Dividida e Ocultação: A capacidade de sustentar múltiplos relacionamentos de longa data sem demonstração aparente de culpa aponta para elevados níveis de desconexão empática e um traço acentuado de mitomania (mentira compulsiva).
• Necessidade de Controle e Poder: O uso de aplicativos de vigilância sob o pretexto de ciúme não reflete insegurança afetiva, mas sim um desejo de assimetria de poder na relação. Na psicologia relacional, o parceiro que controla frequentemente projeta no outro suas próprias condutas ocultas, mantendo a vítima em vigilância contínua para evitar a perda da posição de domínio.
• Construção de Fachada: Pessoas com traços de narcisismo perverso frequentemente mantêm uma imagem pública de parceiros "amorosos e carinhosos" para garantir a validação social, enquanto exercem violência psicológica e abusos velados no ambiente privado.
2. O Luto Traumático e a Ruptura da Realidade da Vítima
• Dissonância Cognitiva severa: A descoberta de que a pessoa velada não correspondia ao indivíduo real provoca um choque psíquico agudo. A vítima é forçada a processar duas perdas simultâneas: a morte física do parceiro e a morte da narrativa de vida que construiu durante 12 anos.
• Invalidação do Passado: Esse tipo de trauma atinge o registro de memória do sujeito. Perguntas como "o que foi verdade?" desestabilizam a percepção da própria história, gerando quadros temporais de desrealização e congelamento emocional — como relatado pela própria arquiteta ao descrever a reação inicial de seu sistema nervoso frente ao impacto do velório.
• Culpa e Processamento: Em contextos de abuso e controle prolongado, é comum que a vítima desenvolva sentimentos inapropriados de responsabilidade sobre os comportamentos do agressor. A superação do luto traumático exige a desconstrução do vínculo de dependência e o entendimento de que as ações disfuncionais do parceiro eram reflexo de sua própria estrutura de personalidade, e não de falhas ou permissões da companheira.
Síntese Profissional: O caso ilustra como estruturas de personalidade manipuladoras utilizam o afeto, a mentira e o controle como instrumentos de manutenção de poder. O processo de reconstrução psíquica após revelações dessa magnitude não passa apenas pelo luto do falecimento, mas principalmente pelo trabalho de ressignificação da identidade e pela recuperação da autoconfiança violada por anos de engano sistemático.




